A beleza de ser quem é

Todos passamos por dias em que nos olhamos no espelho e não reconhecemos a pessoa que está refletida ali. Não reconhecemos o cabelo e os olhos cabisbaixos que não se parecem nada com os nossos. Encaramos as mãos e percebemos que aquela cor de esmalte não é, e nunca foi, a nossa preferida.


Fitamos os olhos e aquele brilho, se ele ainda existir, não é a nossa luz. Nossas roupas não se encaixam no contexto nem na nossa alma. O sorriso está quadrado demais. Como se estivéssemos morando no livro A Hospedeira e nosso corpo estivesse sendo habitado por uma alma alienígena. E nós, ainda estamos em algum lugar, se houver sorte.

Nessa hora, bate o desespero. Dá vontade de arrancar toda a roupa e pele para saber quem habita este, que nasceu para ser nosso, corpo. A gente vasculha cada centímetro da memória e refaz os passos para saber quando foi que deixamos de morar em nosso único lar.

Nos perdemos. A vida inteira nos perdemos para tentar encontrar uma formatação perfeita. Mas ela não existe, e isso frustra. Frusta, mas não choramos, porque vulnerabilidade não deve existir. Erro atrás de erro.

E quando percebemos, temos medo. Medo porque ser quem a gente realmente é, exige coragem. Medo porque nunca sabemos quem vamos encontrar se olharmos para nós. Medo porque dá trabalho retirar todas as cascas que colocamos sobre nós durante uma vida inteira, dia após dia. E isso é assustador. Assustadoramente lindo. É lindo retirar todo o peso que nos foi colocado e se sentir leve. Ver a pele brilhar à luz que vem de dentro.


É bonito quando a gente percebe que vulnerabilidade é para os fortes. Que lidar com quem a gente realmente é pode ser árduo, mas recompensador. Vale à pena botar a mão no peito e sentir que o que está ali pulsando é vida. É você, verdadeiramente.

Nosso corpo não é hotel. É lar, nosso único e verdadeiro lar. E é tão bonito olhar para si e dizer "eu me vejo". Fazer as pazes com nossos defeitos e saber exaltar todas as nossas qualidades. Se colocar em primeiro plano, sem culpas, sem remorsos. É ter orgulho de ser imperfeito, e enxergar a perfeição em cada conquista.

É transformador quando a gente descobre que não existe emoção que não possa ser sentida. Que vergonha não é desculpa e medo não é trava-quedas para o pulo no interior de si. Que o salto da consciência traz mais adrenalina do que bungee jump.

Bonito é saber que só os de muita coragem conseguem ser quem realmente são. E assumir: eu sou assim e é assim que quero ser.


Júlia Wentz dos Santos

21 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e sonhadora em tempo integral.

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