Aviso prévio para uma data inexistente

Vai chegar o dia em que eu não mais voltarei. E será nesse dia, antes de eu ir, que eu olharei no fundo dos teus olhos negros e gritarei para que o mundo inteiro ouça. Vai ecoar por todos os cantos, de todos os continentes, que eu já não sinto mais nada por você. 

E vai chegar o dia em que eu não vou fazer vigília na frente do teu prédio para tentar te ver, nem que seja de relance. Será nesse dia que eu mudarei a minha rota e encontrarei um caminho que não me leve até você.

Não sei se será em uma manhã de sol em um feriado qualquer ou em uma noite de quinta-feira chuvosa. Talvez esteja frio, dentro e fora de mim, mas ao invés de te chamar eu vou me esquentar com um cobertor, uma dose de conhaque e uma comédia romântica, nas quais você nunca me acompanhou.

Eu sei que vai chegar o dia em que a gente vai se esbarrar e a tua cara de sério não vai fazer com que eu queira cair nos teus braços. Teu sorriso não vai me desconstruir. Talvez eu até nem olhe no fundo dos teus olhos para tentar decifrar o que você está sentindo.

E vai ser nesse dia que eu vou parar de ir e voltar o tempo inteiro. Que eu vou tentar me encontrar em lembranças que não sejam com você. Vai ser nesse dia em que eu vou me jogar no temporal, sem medo, para ver se eu sinto algo. Se nasce algum sentimento que seja mais meu do que seu.


E enquanto esse dia não chega, eu vou tentando decorar os teus detalhes. Vou revivendo o toque suave da tua pele e te arrancando aos poucos de mim. Vou olhando para os teus olhos e evitando o teu olhar de volta, é impossível sair do abismo. 

Enquanto esse dia não chega, vou te decorando pouco a pouco, guardando os pedaços que eu não tinha. Vou desenhando os pelos do teu braço e a corrente prateada que fica entre o teu pescoço e a gola da camisa polo. Rabisco os teus cabelos em suaves ondas, de uma cor que não existe em caixa de lápis alguma. 


Vou gravando a tua voz em todos os tons que eu conheço, que é para tocar nas madrugadas de insônia e me fazer companhia em duetos imaginários. Vou guardando a vaga do teu carro, que é para você chegar mais cedo em casa e vou também refazendo a decoração do teu quarto para que você possa, em cada canto, lembrar de mim.

Porque quando o dia chegar, você vai me procurar e saber que eu já não estou mais aqui. Vai sentir minha falta em todas as lembranças que eu deixei. Você vai me ligar e, dessa vez, eu vou ter trocado o número. Vai chegar o dia em que vai desejar, com todas as suas forças, ter me dado aquele abraço nas luzes dos fogos e todo o amor que eu pedi. E finalmente você vai entender as minhas entrelinhas e perceber que eu estive ao seu lado o tempo todo.

Júlia Wentz dos Santos

21 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e sonhadora em tempo integral.

3 comentários:

  1. pegou bem lá no fundo da alma, sei nem o que dizer. Aliás, sei uma coisa: palmas, texto incrível

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    1. Que bom que tenha gostado, Vih!
      Volte sempre :D

      beijinhos :*

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