Só é tarde demais quando a gente esquece

Oi, eu sei que é um pouco tarde, provavelmente em todos os sentidos, mas eu precisava te ligar. Te dizer que já fazem 2 horas que eu tô encarando o teu contato no celular e já briguei comigo mesma três vezes, tentando me convencer de que já não há mais nada a ser dito.

O problema é que as palavras engasgam pelo que poderia ter sido e não foi. Elas resvalam no limbo que eu estou, e sei que você também andou visitando. Nós tínhamos a corda, mas não soubemos içar nossos corpos para fora desse espaço confinado que foi a brevidade do nosso relacionamento.

Ontem eu senti as notas do teu perfume saindo de algum lugar da minha memória sensorial. Porra, que perfume bom, qual era o nome mesmo? Eu vi seus dedos em um lapso de memória, as unhas feitas e um pouco de calos nas pontas pelo dedilhar das cordas, ou da minha pele.

Quando foi que a gente se perdeu mesmo? Deve ter tido um dia, um gesto, uma palavra que nos separou. Não foi só o medo, não foi a vontade. Qual foi o movimento errado, a cartada que foi blefe?

Quem disse que é errado amar tão rápido assim? Quem disse que beijo não vicia? O teu tem gosto de chiclete de menta, viciei nessa porcaria e agora minha gastrite reclama dos meus excessos. Viro os dias em uma xícara de café e as noites em uma música que eu te dei de presente e tu nem ouviu.


E eu retorno para o dia em que te conheci e queria não ter te visto. Desculpa, quando foi que você surgiu mesmo? Que história é essa de cruzar o meu caminho? A camisa listrada e os olhos assustados "será que dá pra voltar outro dia?". Não, é hoje. Entre e fique à vontade. Só não se demore, o tempo é curto.

Demora. Entra e fica mais. Não desliga agora, por favor, deixa eu ouvir mais da tua respiração baixa e acelerada. Deixa eu ouvir a tua voz e a tua risada. Deixa eu lembrar do teu sorriso. Droga! O sorriso, o queixo se projetando para frente em traços finos e precisos. Droga de novo! Lembrar do teu sorriso é tortura, é abstinência. É crise.

Desliga esse telefone e bate na minha porta. Deixa pra lá o que te prende. Esquece essa coisa toda de tempo certo. Deixa eu ser fiel ao que eu sinto, não me prende, não me esquece. Me agarra e me mostra o caminho. 

Fala alguma coisa. Diz que eu sou louca, que tudo é uma péssima ideia. Que eu apresento traços de insanidade na minha voz. Mas fala que o meu perfume também te visita e que meu toque é o calafrio da tua madrugada. 

Eu sei que é tarde, assim como eu sei que nunca deveria ter ligado. Da mesma maneira como eu sei que nunca deveria ter dado todos os passos que dei na sua direção. Você poderia ter cruzado o meu caminho sem me atravessar, mas eu me coloquei na sua frente sem piedade. Você foi minha única impulsão. Eu fui tua fuga. Fomos o que nunca deveria ter sido, assim como essa ligação, que não deveria ter acontecido.

E mesmo assim, ainda deveríamos ter sido mais. E eu, não deveria ter dito nada. Já passa da meia noite. Já está tarde, tarde demais.

Júlia Wentz dos Santos

21 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e sonhadora em tempo integral.

2 comentários:

  1. Uma amiga minha sempre me diz que se ainda não tá tudo bem, é porque não tá no final. Quem sabe, o tarde demais pode ser o momento certo para um recomeço :)
    beijos <3 amei o texto

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    1. Quem sabe os recomeços sejam a prova de que o tempo não existe, que no amor é tudo linear e acontece agora. Que nunca é tarde se for amor, pois ele acontece todos os dias!

      Obrigada pela visita e pelo carinho
      Beijinhos :*

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