Uma carta para quem não foi

Hoje eu passei na frente da tua casa, toda fechada e sem teu carro na garagem. Parte de mim quis, e se doeu por isso, que tu tivesse ido embora para sempre. Egoísmo meu, eu sei, mas é impossível suportar a ideia de te encontrar pela calçada e não poder te tocar. Um "oi"só de longe e sem olhos nos olhos, sem sorrisos nos lábios e com um peso imenso guardado no coração.

Deixei embaixo da porta uma carta com todas as coisas que eu nunca disse, na esperança de que você nunca lesse. Disse que me perdi quando encontrei as minhas mãos nos teus cabelos e a minha boca na tua, sentimento tão desejado e almejado por tanto tempo. Que no teu céu existem mais estrelas do que eu jamais havia visto e que a tua pela na minha pele me aquecia por inteira, logo eu que sinto tanto frio. 


Eu nunca disse, mas teu olhar me queimava por dentro e o teu sorriso me destruía em milhões de partículas que pareciam não mais se encaixar. Que o teu perfume sutil me tonteava cada vez que eu encontrava com o teu pescoço e que eu perdia a noção do tempo enquanto eu me aconchegava por ali. Que era no teu abraço, com o nariz colado no teu cheiro, que eu poderia passar o resto da minha vida.
E não doeu quando eu cheguei em casa, eu não sabia do que viria pela frente. Ou o que não mais viria. Doeu quando o teu telefone deu na caixa postal e tua janela se fechou. Doeu quando eu soube por aí que teu semblante estava fechado e meu nome não saía mais dos teus lábios. Eu tentei entender, mas eu não fui capaz, visto que eu não entendia nem o que eu estava sentindo nesse misto de raiva e quase-amor perdido.

Te deixei ir embora e teus olhos não me olharam pelo retrovisor. Não era pra ser. E finalmente eu entendi que o destino prega peças, porque eu te quis desde a primeira vez que te vi -destino, pensei- e agora eu sei que nunca serás verdadeiramente meu -era só acaso-. E que essa história, que terminou tão rápido quanto começou, serviu para marcar em mim os dias e horas em que, em silêncio, desejei te ter. E desejei nunca te perder. Nunca te perdi, você nem foi meu.

E foi assim que me libertei de ti e te libertei em mim. Te deixar ir, mesmo sabendo que você não iria. Fingir que sua casa não é mais aqui, que meu peito não é, e nunca foi, teu lar porque lar a gente não abandona, a gente vive nele independente de qualquer coisa. E quando eu vi a tua janela aberta e o teu carro na garagem, respirei aliviada por saber que a minha carta estava endereçada, porém não assinada. Que a tua insensibilidade nunca vai te deixar saber que fui eu, pois na sua cabeça nunca nem houve um nós. 

Júlia Wentz dos Santos

21 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e sonhadora em tempo integral.

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