O amor em overdoses


Falar sobre o amor não é uma tarefa fácil. As teorias são muitas, as fases, as características de cada relacionamento. Mas gosto de pensar que ele é feito de overdoses. Meu lado biólogo diria que são overdoses hormonais. Pararíamos por aí, se meu lado romântico não fosse tão mais expressivo.  A primeira overdose tomamos logo no primeiro olhar, uma de estrelas, que refletem em nossos olhos, expondo toda a nossa alma e nossos sentimentos mais profundos ali. Após, chega de mansinho a overdose de sonhos, planos e expectativas. Confesso, um combo pesado. Pesado pois ele precisa de um acompanhamento, se for ingerido sozinho, a ressaca é de sofrimento e decepção.

Se o amor for compartilhado, distribuímos ao mundo uma overdose de sorrisos. Não há quem não se contagie com o amor e a felicidade estampados na cara de um início de relacionamento. Enquanto isso, toma-se doses de expectativas e é esta que nos dá, em primeiro momento,  um porre de certeza de que encontramos a pessoa perfeita. Mas um porre é sempre um porre. E é assim que começamos a perceber que a pessoa que está ao nosso lado não é perfeita, e que os defeitos dela podem ser coisas que, até então, abominávamos. Toma-se a primeira overdose de raiva e, como consequência, as primeiras brigas. 

Existem amores que não passam delas. Acabam aí, encerram. Amores incapazes de sobreviver a um porre, mas como falei no início, cada amor é singular, e por isso é tão difícil falar sobre eles. Mas existem pessoas que tomam uma dose de realidade, exatamente nessa fase, e caem por terra. Descobrindo que, no fundo, ninguém é perfeito, e que grande parte dos defeitos são exatamente o que compõem a essência da pessoa que está ao seu lado, e a sua também. No fundo, o defeito é o que nos molda. Então, ocorre a ligação embriagada, o reencontro desajeitado e a overdose de perdões. Isso, ocorre inúmeras vezes dentro de um relacionamento, infelizmente o amor tem dessas de insistir em doses passadas, mesmo sabendo que a ressaca que vem depois não tem o efeito desejado.


Então, o amor resolve que é hora de tomarmos mais uma dose de planos e sonhos, dessa vez, com um acompanhamento forte, planejado e bem consistente. A overdose costuma ser de planos mirabolantes e criação rotas não-convencionais para futuras viagens. Bebe-se, então, uma overdose diária de parceria, compreensão, carinho e respeito. (nota: para o bom andamento do relacionamento, recomenda-se overdoses diárias dos 4 últimos citados.) E se o amor for genuíno, haverá ainda uma infinidade de overdoses cujo efeito seja de alegria, bem estar e felicidade aos envolvidos. Uma vida inteira será pouca para todas as overdoses de amor e paixão que serão ingeridas. E sim, a paixão continua ali, presente depois de muitos anos, basta que a gente saiba encontrar o detalhe (ou frasco) em que ela foi depositada, logo no início de tudo.

Alguns amores não têm essa sorte. Esquece-se de tomar algumas doses diárias essenciais. Doses de carinho são substituídas por overdoses de silêncio perturbador, palavras ríspidas. Então, vai um para cada lado. A primeira overdose que vem em seguida, não é você quem toma. O travesseiro toma um porre de lágrimas, inunda-se, transborda-se. E você acha que isso nunca terá fim, porque é assim que tudo faz parecer. Todos os gostos vêm em mente, e você é capaz de sentir tudo. 

A próxima overdose é alcoólica. Qualquer gosto amargo que tire o doce do amor da sua boca e coração. Qualquer imagem que tire o rosto e os sorrisos da memória. Café vem em seguida. A cafeína é praticamente injetada na veia para que não haja a possibilidade de dormir. Pois significaria sonhar com alguém que foi embora. Alguém que você deixou ir. Essa overdose dura por tempo indeterminado, as mãos tremem, os olhos pesam, até que você cede. E você dorme. 

Então, depois de loops infinitos entre álcool e café, que parecem que nunca vão acabar, você finalmente encontra a paz. E ela não acontece em overdose, ela vem em enchente, pois você se dá conta de que foi lindo o que passou, levanta as mãos e agradece por ter vivido um amor. Depois disso, encontra-se pronto para encher, novamente, o copo, a cara ou o coração com overdoses de bons sentimentos. 

No fim, entre uma dose e outra, percebemos que o amor é a maior overdose que podemos tomar, e mesmo que haja ressaca, será a única que terá valido à pena. 

Júlia Wentz dos Santos

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

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