Deixa eu entrar

   Olha, eu sei que é tarde mas eu precisava passar aqui. Eu também sei que já faz tempo, mas eu realmente preciso das coisas que deixei. Não quero que você me ajude a procurá-las, eu sei exatamente aonde estão. Eu deixei meu coração em algum lugar perto da tua cama e tem também algumas palavras soltas voando pela varanda. Pode ir, eu me encontro. Ou melhor, fica aqui, faz um café sem açúcar e senta ali no sofá enquanto eu me organizo. Vai que você se lembra dos velhos tempos e decide que teu santo bateu com o meu hoje. Vai que você me veja perdida, tentando me encontrar na sua bagunça, e resolva me deixar organizá-la.

    Você sempre foi assim, imprevisível, e eu sempre adorei tudo isso. Embora meu signo diga que eu gosto de terra firme, pés no chão e estabilidade, e eu concorde com ele, você me fazia voar alto e eu nem lembrava do meu medo de altura. Você era meu furacão, um Katrina passando em uma pacata cidade do interior, você me balançava e me fazia girar. Eu me sentia em cima do trio elétrico da Ivete passando pela rua menos movimentada de uma pequena cidade da Indonésia. Você não pertencia ao meu mundo e nem ao teu, e mesmo assim tudo se encaixava. Pega minhas músicas que estão ao lado da geladeira, por favor? Compus um disco inteiro só pra ver você sorrir. 

   
Por favor, deixa eu entrar, eu preciso buscar um pedaço de mim que ficou por aí. Tem também um monte de sentimentos que eu quero usar de novo. Vai que numa dessas você me olha e cai dentro do abismo dos meus olhos, vai que você se perde na minha escuridão e finalmente acende uma luz ali. Vai que você comece a contar as minhas sardas e se perde na contagem, eu fico parada o tempo que você precisar, e se quiser te deixo contar todos os meus fios de cabelo, e se tiver tempo, contamos todas as estrelas do céu. Eu sei que já são três horas da manhã, eu sei que eu devia estar em casa, não precisa me falar nada disso. Mas eu preciso, e preciso agora, encontrar aquela lembrança da praia. Por favor, eu sei que ela está aí, deixa eu encontrá-la, preciso dela nos meus sonhos essa noite. Se é que eu vou dormir. É tarde pra eu andar sozinha na rua, me deixa dormir aqui? Só essa noite. 

   Eu sei que nada vai adiantar. Mas me deixa tentar. Deixa eu entrar aí, eu só quero buscar algumas coisas. Eu juro que vai ser rápido e que eu vou tentar ignorar teu cachorro querendo brincar. E vai doer, mas prometo que vai ser a última vez. Deixa eu buscar as frases que ficaram pela sala e cortar as pontas que ficaram soltas. Vai que numa dessas você perceba que eu ainda sou teu grande amor. Vai que numa dessas você me faça um café e peça pra eu sentar. E de repente você veja, no fundo dos meus olhos, que você também deixou pedaços em mim. Porque quem vai, nunca vai inteiro, e quem fica, fica em pedaços. Vai que numa dessas você esquece que o tempo passou e lembra que meu beijo é doce. Vai que numa dessas você me pede pra ficar.

Eu sei que é tarde, mas deixa eu entrar.

Júlia Wentz dos Santos

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

2 comentários:

  1. É um texto bonito, e triste também. Parece que a personagem está insistindo em algo que talvez, agora, não esteja dando tão certo.
    https://domvisconde.wordpress.com/

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  2. Muito obrigada! É verdade, alguns amores, infelizmente, acabam morando em apenas uma das partes quando chegam ao fim.
    Obrigada pela visita, volta sempre!
    Beijinhos :*

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