Minha casa, você

   Deixei tuas bagagens perto da porta, só por precaução. Você entrou aqui em casa e trouxe tanta coisa, espalhou tudo por aí, como se a casa fosse sua. Sente-se por favor. Estou bem aqui, obrigado. Colocou uma memória em cada pedaço de estante que estava vazio, empurrou meus porta-retratos e antigas memórias para um lado e pouco a pouco foi acomodando suas coisas. Quando vi, sua vida estava na minha cozinha, dentro da minha geladeira e nos sabores das geleias.  

   Não demorou muito e a fronha do travesseiro passou a exalar teu cheiro e meu shampoo de argan foi substituído pelo teu, aloe vera. Os meus doces se tornaram refrescantes e meus cremes de pentear foram espremidos pelo creme de barbear, o porta lentes e alguns potes que não sei pra quê servem.  

   E foi assim, que pouco a pouco, você foi ganhando meu espaço. A casa é sua, e eu também. Vou ficar, prometo. E fique, fique mesmo. Se precisar, eu tiro umas almofadas do sofá para você colocar alguma coisa ali, e na última gaveta da cômoda tem espaço para os seus livros. Na rede da varanda tem espaço para o teu silêncio e na minha cama tem espaço, mas não se preocupe, não o usaremos. Prefiro ficar grudada em ti.


   Mas cada vez que você corre escada a baixo com a mochila nas costas, mesmo com a promessa da volta, meu peito se aperta e a dúvida toma conta dos meus espaços em branco. Entra pelos meus poros e bate um desespero. Eu volto, prometo. Eu sei. Mas eu te acompanho pela sacada, coração na mão e olhos vidrados.

   E cada vez que você volta eu respiro aliviada. Desculpa, eu não devia me apreender tanto, mas é que já me quebrei tantas vezes que você nem saberia. Eu sei, eu volto. Sempre volto. Obrigada. É que eu não saberia lidar com tuas roupas no meu armário e você indo embora. Não saberia mais escolher o sabor da geleia e nem as melhores frutas da fruteira. Meus pratos não seriam mais tão saudáveis e nem tão coloridos. Eu esqueci como era a vida antes de você, e hoje, tudo o que eu vejo são teus objetos espalhados por aí, como pedacinhos de você que se completam quando te vejo entrando pela porta.

   De todas, você é minha história mais bonita. Eu sei que você fica porque quer, sei que teu sorriso é verdadeiro. Sorrio por ti. E nunca antes vi um sorriso tão bonito assim. 

   Mas mesmo assim, eu deixei tuas bagagens perto da porta, só por precaução. Não saberei lidar com cremes de barbear caso você não volte. Não saberei ver você procurando suas coisas pela casa caso queira ir. E Deus é que me livre de encontrar um pedaço teu em algum canto. Mas eu não vou embora. Eu sei, eu também não.

Imagem: We Heart It

Júlia Wentz dos Santos

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

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