Sozinha

  Para ouvir ao som de Sozinho - Caetano Veloso

   Não sei dizer quanto tempo estive ao lado dela. Podem ter sido horas, ou talvez anos, mas isso não importa. Não agora. O que importa é que ao lado dela eu perdia a noção do tempo. Eu me aninhava em seu pescoço, sentindo o cheiro frutal que exalava de seus cabelos longos. Enquanto eu ficava ali, ela cantarolava Caetano, mesmo sabendo que eu preferia Buarque, e se irritava com meus longos silêncios. Ela me pedia o porquê de eu nunca cantar para ela, mas como eu teria coragem de arranhar algumas notas desafinadas, quando a voz dela havia sido roubada de um anjo?  Então ela se calava, não saia mais Caetano, nem Buarque e muito menos um Jobim. E eu ficava ali, me sentindo o pior cara do mundo por fazer ela se calar. 

   Eu corria meus dedos pelo braço dela, então ela sorria, e eu sabia que tudo ficaria bem. Mas ela não voltava a cantar. Me enlaçava nos seus braços e me dava um beijo doce enquanto eu, eu sabia que era o cara mais sortudo do mundo por estar ao lado dela. Ela me forçava a sentar ao seu lado, me tirando do meu porto-seguro, e me contava histórias, ora sobre as estrelas, ora sobre as matas, e ela era assim, daquelas que sabem um pouco de tudo. Das poucas que sabem um pouco de tudo. A fala dela era mansa e me envolvia em uma narração que misturava fatos reais com suas empolgações e eu não estava nem aí se era verdade ou uma ficção que a mente dela criava. Eu só queria estar ali, envolvido de qualquer maneira com ela. 


   E eu agradecia todos os dias pelas forças sobrenaturais, físicas, ou seja lá o que fosse, que ela gostava de chamar de destino, por ter colocado ela no meu caminho. Eu chegava em casa, fechava meus olhos e sorria pela sua lembrança, sorria pelo nosso dia juntos e sorria ao lembrar que ela não fechava a porta de casa antes de ter certeza de que eu havia virado a esquina e já não voltaria mais. Eu falava para todos os meus amigos o quão linda e maravilhosa ela era e os fazia invejar todo o carinho e amor que eu recebia, ouvindo-os dizer que torciam pelo dia que também encontrariam alguém como ela para amar.

   O problema foi que eu nunca falei isso pra ela. Nunca agradeci por ter ela ao meu lado, nunca cantei uma canção se quer ao pé do seu ouvido. Eu também esqueci de falar pra ela que eu podia viajar naquele mar negro que estava dentro dos olhos dela. Eu nunca falei pra ela que eu amava o cheiro frutal dos seus cabelos. Então, ela trocou o shampoo, ou creme, ou condicionador, ou sei lá. Só sei que os cabelos dela perderam o cheiro de frutas. E ela também parou de cantar Caetano. Não cantou Buarque nem Jobim também. Eu dedilhei o braço dela e ela, em um movimento brusco, fez eu parar. Pediu para que eu sentasse ao seu lado, sem me forçar -disse que não queria me obrigar a nada-, e não me contou nenhuma história que faria George Martin sentir-se intimidado. Na verdade, ela me pediu para ir embora. Pediu para que eu fosse para longe, o mais longe que eu pudesse ir. Ela disse que cansou, cansou de cantar sozinha o que deveria ser um dueto, cansou de contar histórias que deveriam ser vividas por nós. Ela disse que cansou do meu sofá e que não quer mais saber. 

   E ela pediu pra eu sair. E antes que eu botasse meus pés na calçada, ela fechou a porta. Fiquei esperando ela voltar a abrir, e não aconteceu. Virei a esquina sabendo que, dessa vez, eu não voltaria. Não voltaria mesmo. E eu deitei na cama e amaldiçoei a droga do destino que me tirou dela, (ou será que fui eu quem a perdeu?), amaldiçoei o maldito destino que não me deixou continuar ao seu lado. E eu deitei na minha cama e chorei por aquele beijo doce-enjoativo e aquele sorriso branco-nauseante que ela carregava. Liguei para os meus amigos e falei que ela era uma maldita. Que havia estragado a minha vida e os fiz acreditar que nunca deveriam encontrar alguém como ela. Que aqueles olhos negros dela me hipnotizaram e me envolveram em algum tipo de ritual para roubar a minha alma e que agora eu era dela. E ela me fazia sofrer. E ela havia me deixado ali, jogado. 

   E hoje eu sinto sua falta como nunca achei que sentiria. Hoje eu ouço Caetano pela manhã e antes de dormir. Deixo uma mensagem na sua caixa postal todo meio dia. Ela nunca retorna. Ouvi dizer que ela está bem, anda citando mais Jobim do que Caetano e que nem toca no nome do Buarque. Ouvi dizer, também, que cortou os cabelos, antes longos, e agora usa perfume amadeirado, pra não deixar dúvidas. Enquanto isso, eu continuo tentando me convencer de que não era pra ser. De que não era destino e que ela roubou minha alma. 

   Mas no fundo eu sei, era pra ser. Devia ter sido. Devia ter sido, de verdade. E eu devia ter feito uma serenata pra ela, ou apenas ter cantado ao pé do seu ouvido. Pena que a gente só sabe o que deveria ter sido, quando não foi. Eu não fui pra ela, e ela se foi sozinha. Sozinha.

Imagem: Pinterest

Júlia Wentz dos Santos

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

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