Sobre amores e avenidas

   E um dia eu encontrei você. Não sei dizer se foi antes ou depois de você me encontrar, e talvez tenhamos feito isso ao mesmo tempo, porém seu olhar baixo regado a mistério provocou um arrepio na minha coluna. Eu paralisei, congelei da ponta do dedo até o ultimo fio de cabelo.

   Você me observa com um olhar que me desnuda e revira do avesso. Eu escondo meus olhos de você, afinal, são os espelhos da alma, mas você não precisa deles para me atravessar, perfurar e observar cada nuance da cor que reflete da minha áurea. Você me olha calmo e tenso ao mesmo tempo e eu não sei como fazer para o teu olhar não desviar a minha atenção de qualquer coisa que esteja ao meu redor.

   E você aparece e some, você vem e volta como em um jogo de esconder e nunca me diz o que você quer. Sim, eu sei, você é de pouca conversa, fala baixo e exala timidez em tudo, mas vem cá, senta do meu lado e me conta o porquê de tudo isso. Me conta qual o mistério por trás desse olhar, qual a força que ele esconde, qual a magia antiga que ele libera.

   E um dia eu encontrei você. Não sei dizer se foi acaso ou destino, nem sei dizer com exatidão a data ou o horário em que vi você passar pelo outro lado da avenida mais movimentada da capital. Só sei que, em meio a todo aquele atropelo de pessoas grudadas aos seus smartphones, fones de ouvido e universos particulares, eu encontrei você, e você me encontrou também. E o sol apareceu por entre as nuvens e a poluição e as borboletas vieram morar no meu estômago. Isso tudo, por sua culpa, e do seu maldito olhar baixo cheio de mistério. 



   E agora eu fujo do seu olhar de predador, porque eu não nasci para ser presa, e você deve ter lido isso em alguma das entrelinhas da minha alma que você invade a todo instante. Eu fujo de todo esse mistério porque ele me assusta, mas me faz sol ao mesmo tempo. Você insiste em me invadir, em me expor, e eu me sinto um livro aberto diante de seus olhos, mas eu sempre tive capa de ferro, e você burla isso. Você passa por cima de todas as minhas regras, meus dogmas, meus paraísos inventados. Você passa por cima de todos eles, pisando fundo, encontrando a minha essência sem pestanejar, sem precisar procurar e sem precisar falar nada. Você me fala com os olhos, você me absorve e me devolve em pedaços.

   E agora eu volto para aquela rua movimentada, querendo me encontrar e te deixar por lá. Logo você, que movimentou toda a minha estrutura e fez a minha alma aparecer clara. E vezes eu desejo ver e outras eu me escondo desse seu olhar de fera, olhar de mistério. Você me confunde e abandona. Você vem e passa como se nada tivesse acontecido. Como um furacão que destrói e vai embora, que expõe e some. Você é assim, descobre todos os meus segredos e desmancha as estruturas e vai, sem dizer para onde e quando volta. E é por isso que eu fujo. Detesto essa sua instabilidade, detesto esse teu jeito de me olhar e virar as costas. De me puxar para perto e correr.

   E um dia eu encontrei você. Não sei dizer se foi destino, acaso ou não foi nada de mais. Só sei que desde que te encontrei, deixei um pedaço de mim na avenida tentando encontrar alguém que não me engula, alguém que não me invada, alguém que tire de mim todo o peso do teu olhar e calmaria da tua voz. Só sei que desde que te encontrei, ando me desencontrando por causa desse teu sol que me ofusca a visão e deixa vulnerável para que você possa descobrir toda a minha vida só de me olhar. Só sei que desde que eu te encontrei, ando desejando nunca ter estado lá.

Júlia Wentz dos Santos

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

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