Mesa 4

Levantei e minha cama estava vazia do outro lado, seu cheiro ainda estava na fronha do travesseiro, mas você havia saído antes que eu acordasse. Não deixou nenhum bilhete em cima do criado-mudo e nem uma rosa, como você sempre fazia. Era segunda de manhã, e você nunca trabalha nas segundas de manhã. Abri meu guarda-roupas e o seu lado estava vazio. Chorei. em cima da mesa da cozinha havia um bolo inglês da padaria da esquina, que eu amo, e um guardanapo escrito "desculpa". No momento eu não entendi, era coisa demais pra processar, estávamos indo tão bem e você me deixou. O cara da banca de jornal me perguntou de você, eu não quis dizer, inventei que você havia ido visitar sua tia que mora em outro estado ou algo assim, ele soube que não. Naquele momento todo mundo soube, só pelo meu olhar e pelo jeito impaciente que eu mexia no anel que você me deu, que você havia me deixado em plena segunda-feira mais cinza da última década.
Eu nunca entendi o motivo, nunca quis entender, por medo da certeza de ter feito tudo errado com você. Seu Manuel, que não é português e sim italiano, da padaria me dá todas as manhãs um bolo inglês e sempre me diz que no fundo eu sei o porquê. Eu sei, no fundo eu sei que você foi embora por não estragar tudo, por achar que um dia você ia me machucar. E machucou. Todos os dias você passa na padaria da esquina do meu apartamento, antes que eu saia de casa, e me deixa um bolo inglês, vez ou outra encontro nele alguns confeitos em forma de coração. Você foi embora por me amar demais e sentiu medo. Eu até entendo, meu amor eu te entendo. Só não entendo porque você nunca atendeu minhas ligações, que ainda são diárias.
Tudo o que eu sei é que você continua pedindo aquele cappuccino com muita canela e continua sentando na mesa 4 da padaria, aquela em que nós sentávamos e dá pra ver a janela do meu quarto, porque todos os dias eu sento lá também, seu copo continua lá, assim como seu perfume amadeirado e sempre, no primeiro guardanapo há um "desculpa"escondido no canto.
Talvez um dia eu hei de entender o real motivo de você ter escolhido deixar a minha cama mas permanecer na minha vida.

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

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