Sacada

Entardecer, o sol começava a se pôr, o resto de sua luz coloria o céu nos mais diversos tons de rosa e laranja. Estava sentada em minha sacada lendo aquele livro do Caio F. Abreu que eu amo, você sabe, já lhe falei sobre ele inúmeras vezes, quando você passou. Você não olhou pra minha casa, muito menos para minha sacada. Eu olhei para você, te acompanhei com meus olhos durante todo o seu percurso pela minha rua. Você estava confiante, cabeça erguida. Aquilo me doeu, quebrou o pedaço do meu coração que tinha acabado de ser arrumado, a cola ainda estava fresca e cedeu.
Seu perfume, que você sempre exagerou na dose, subiu até o segundo andar da minha casa (não sei se de verdade ou foi meu psicológico me traindo) e eu perdi minhas pernas. Seu cheiro amadeirado sempre me fez bambear, entrar em êxtase.
Desci pelas escadas, larguei meu posto de Julieta apaixonada esperando na varanda e corri. Cheguei na esquina e você havia sumido. Você sempre sumiu quando corri atrás de você, e eu nunca acreditei que poderia acontecer novamente. Caí no meio da calçada, junto comigo um rio de lágimas e o seu perfume me rodeando. Pessoas pararam para me ajudar, mas nenhuma delas traria você de volta, se ao menos você ouvisse meu desespero e voltasse correndo, se ao menos você tivesse deixado a carteira cair perto da minha casa e voltasse correndo pra buscar e percebesse que você também me deixou cair e quisesse me buscar...
Anoiteceu, as estrelas iluminaram meu caminho de volta pra casa, a lua me olhava com pena do meu pranto, ela sabia o que era a dor de um amor. Subi minhas escadas e peguei meu Caio, folheei algumas páginas, sem saber exatamente onde eu havia parado, e encontrei dentro dele, em um cantinho, uma anotação tímida. Era sua letra, eu reconheci na hora, "eternamente minha", dizia. Você acertou, serei eternamente sua, mesmo que você já nem olhe para minha casa, já não faça mais declarações de amor em baixo da minha sacada como sempre fez.
Olha, eu tô tentando viver sem você e sem as suas risadas, piadas e tudo mais, eu até tinha conhecido um carinha legal e ele tinha me chamado pra sair hoje, justo hoje. Eu tinha aceitado, mas com que cara eu vou ir agora, como quem chorou na calçada por quase uma hora? Como que vou deixar meu coração aberto se toda vez que eu colo as partezinhas você dá um jeito de aparecer? Até na minha melhor roupa tem lembranças de você, e agora o que eu vou vestir?
Eu não sei o que fazer, e o Caio, meu melhor remédio para ausência de você, não sabe o que me dizer também. E se um dia você passar aqui na minha varanda, de repente olha pra cá, lembra de mim e toca a minha campainha. Eu corro pela casa, guardando a bagunça que sempre teve e abro pra você com o mesmo sorriso de sempre, eu juro pra você que vai ser como se nada tivesse mudado, como se você nunca tivesse sumido da minha vida. Eu te preparo aquele brigadeiro, com gosto de romance adolescente, pra gente comer no fim de tarde, depois de um dia cansativo de trabalho. Mas vê se um dia volta, se me espera pra eu sumir contigo, pra gente rodar o mundo com uma mochila nas costas, pra gente casar e ter nossos filhos, pra que a minha vida se construa ao teu lado, pra que o nosso amor seja, finalmente, eternizado. Pra que as minhas birras sejam todas perdoadas, para que eu possa ser pra você o que você sempre esperou. Para que eu possa olhar para trás e rir do dia de hoje, onde você passou e eu chorei na calçada. Chorei por amor.

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

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