O amor mais insuperável da minha vida

Ele era lindo. Era meu amor insuperável. Olhos escuros, quase a noite envasada. Os cabelos macios traziam aquela forma, eram roubados dos anjos.
Rezava a lenda que éramos feitos um para o outro. Diziam por aí que nosso futuro era certo, e eu -menina apaixonada / sonhadora- resolvi acreditar. Encontrei em tudo motivos para provar que aquele era o veredito final: um dia você me olharia e saberia que eu era o grande amor da sua vida, casaríamos, 3 filhos, 2 cachorros, casa grande e viagens pelo mundo. E eram nossos gostos musicais quase completamente diferentes e os assuntos em comum que deixavam tudo isso interessante. Era você tentando me provar que sabia  mais do mundo do que eu e eu tentando impressionar você com todas aquelas histórias que algum dia eu li em algum lugar. Era eu combinando nossos signos e descobrindo -pra aumentar minha ilusão- que são os signos mais compatíveis do horóscopo. E quanto aos nossos narizes? Meu Deus do céu, nossos narizes eram iguais, e claro que, mesmo não significando nada, aquilo era um sinal divino, era a prova real, era a comprovação de que nossas vidas estavam destinadas a seguirem pelo mesmo caminho. Certo? Não.

Enquanto eu te ganhava nos jogos de azar, perdia pra você no amor. Eu aguentei ver você de coração vazio, sem poder preencher. Aguentei ver você beijando minhas amigas -as que nunca souberam do meu amor insuperável-, as amigas das minhas amigas, a vizinha, a irmã da prima da vizinha e eu nunca te pedi um beijo. Nunca te pedi um abraço, nunca quis fazer você sentir dó de mim. Eu vi você procurar o amor no mundo inteiro enquanto eu estava ali, ao seu lado em todas as oportunidades da vida. Mas eu sempre fui quieta e você popular. Eu vi você beber e fazer o que desse na telha, eu vi você perder a fama de moço de família e não tomei um gole pra ir atrás de você. Confesso, um pouco da culpa foi minha, eu nunca fui atrás de você, mas sempre te dei abertura. Infelizmente vez ou outra -e aí diga-se sempre- as outras garotas se antecipavam.

E aí, aqueles que sabiam do meu amor insuperável, me olhavam com dó. Aposto que tinham vontade de encher minha cara de tapas -e eu acredito que merecia- pois eu era toda sua, tinha olhos só pra você e você nunca foi meu. Naquela época eu escrevi um livro inteiro de textos e contos e poemas e músicas sobre você. Gastei todas as palavras do dicionário 3 vezes pra tentar escrever todo aquele amor, na esperança de que um dia você lesse. Como era de se esperar, eu nunca mostrei. Você nunca leu. Você nunca viu seu nome escrito nas últimas páginas dos meus cadernos e nas minhas paredes. Na minha casa você nunca passou da sala, nunca sentou ao meu lado em um filme de terror e nunca conheceu a minha coleção de qualquer coisa que me lembrasse você.

E agora, nossos signos continuam os mesmos, nossos narizes, perfeitamente iguais, seus olhos continuam como a noite e seus cabelos um pouco menos desalinhados. Faz um tempo que você deixou a casa dos seus
pais, conheceu um lugar qualquer que eu sonhava que conheceríamos juntos, talvez você leve uma garota por semana no seu apartamento pequeno -completamente diferente da casa grande que teríamos- e talvez você não leve garota nenhuma por estar pensando no que poderia ter sido se você tivesse olhado pra mim antes. Enquanto isso eu passo meus finais de semana em casa, esquecendo de me lembrar de você. Vez ou outra vejo algo seu em alguma rede social, me deparo com um sorriso no rosto, mas não um sorriso de saudade, sabe? Aquele sorriso que vitória, aquele que me diz que eu deixei pra trás o velho amor. Aquele que eu tentei desmoronar no 11 de setembro, e engolir em um abril de tantos anos atrás. Deixei pra trás o velho amor e fiz tudo sozinha. Claro, você ajudou e muito quando decidiu que não iria nunca olhar pra mim a ponto de deixar-se entregar para um amor de verdade. E percebi quando, em algum momento dos últimos tempos encontrei você na rua e meu abraço foi gelado, as palavras foram poucas e o sorriso saiu -vezes- forçado.

Superei o amor mais insuperável da minha vida.

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

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