Bar


Era 17 de setembro de um ano que não preciso citar agora, era uma sexta-feira, uma daquelas em que a noite dura uma eternidade. No bar, copos cheios e corações vazios, como sempre acontece. E foi assim que tudo começou.

Ele, despreocupado como sempre, sentava em uma roda de amigos, conversas animadas e comentários sobre tudo o que se pode imaginar. Ela, tentava encontrar, quase desesperadamente, a cura para o coração partido.

Disseram-lhe que umas doses ajudariam, e era por isso que ela sentava-se, sozinha, em uma daquelas mesinhas redondas, estrategicamente colocadas ao lado das grandes janelas de vidro que davam visão para as luzes da capital. Entre goles e lágrimas, não se incomodava com a arruaça da mesa vizinha, "garotos", pensava.

O cabelo armado e o ar melancólico não passaram despercebidos por ele. Entre piadas sobre o time dos amigos e goles de bebida, ele a admirava. Tão perto, mas aparentemente longe e intocável, era assim que ele a via, reluzindo todas as luzes e cores da cidade. Sabia, de cara, que ela sofria por amor, com o olhar perdido e dedos desenhando no copo, não era preciso ser nenhum senhor-sensível para notar. Pensava, então, qual o tipo de cara que teria coragem e audácia para fazê-la chorar.

Com os dedos finos de unhas compridas, fazia pequenos círculos pelo copo. Já não chorava. Olhou para a mesa ao lado e, prestando atenção nos garotos, um chamou sua atenção. Cabelo levemente bagunçado, num tom de castanho claro, tinha ombros largos e um sorriso encantador. O jeito desencanado a fez pensar nele passando horas em frente a um vídeo-game, acompanhado por pantufas e biscoitos, o que a fez rir, porque embora aparentasse ter 2 ou 3 anos a mais que ela, ele era como um tipico adolescente.

A garota parecia do tipo quieta, que estava ali apenas pela falta de opção. Decidiu ir falar com ela, abandonou os amigos na mesa e parou em frente daqueles olhos grandes e castanhos. Ela pareceu, ou fingiu, não notar a presença dele, que pegou uma cadeira e sentou-se à frente dela.

Logo notou a camiseta preta que se aproximou. Reconheceu-o como o garoto da mesa ao lado e espantou-se com o fato de ele ser muito mais alto do que parecera quando sentado. Fingiu não se importar com a presença, mesmo que o som do seu "oi" tenha feito-a estremecer. Ouviu uma cadeira ser arrastada para sua frente, então tomou mais um gole da bebida amarga que estava sobre a mesa.

Ele soube, pelo jeito tímido dela olhar, que era do tipo reservada e que dificilmente ficaria com um cara que acabara de conhecer através de uma cantada já gasta em um bar, e ele nem queria que fosse assim. Quando viu-a afastar os cabelos cacheados dos olhos, sorrindo como resposta ao seu "oi", sabia que queria ser mais, e por isso abandonou as cantadas que costumava usar e começou a conversar.

Ela teve vontade de rir, a final um estranho estava agora sentado em sua frente, falando sobre livros e filmes. Achou engraçado o fato de alguém tentar impressioná-la. Embora soubesse que não se cura um coração quebrado colocando alguém lá dentro, a ideia passou pela sua cabeça. Era inevitável pensar, já que aquele belo par de olhos não parava de fitá-la. Respondia apenas o necessário, mas não queria demonstrar desinteresse, pois sabia que quem quer que aquele cara fosse de verdade, não estava ali por um acaso.

 -Destino-.

Percebeu que ela estava sem jeito, e por isso perguntou se ela se sentia incomodada. Ela disse que não, no tom de voz mais doce que ele já tinha ouvido. Por este motivo, passou a perguntar mais sobre ela, para que seus ouvidos pudessem ouvir mais daquela voz. Ela lhe contou seus sonhos e desejos, fazendo-o desejar estar presente em cada uma de suas realizações. 

Sua vontade era de levantar-se e se afundar nos braços daquele estranho, mas manteve-se no lugar, intercalando risadas e goles de um suco de abacaxi. Trocara o álcool pelo suco, pois sentiu a vida mais doce ao lado dele, gostava do jeito que ele falava da vida e do sorriso que ele carregava. Gostava do gosto musical dele e sorriu ao saber que estava certa sobre o vídeo-game.

Se até uma hora atrás, pensara em ficar um dia com aquela mulher, soube agora que queria ficar para sempre. Seu sorriso sem graça e o sotaque do interior o encantavam e divertiam ao mesmo tempo. Ela tinha uma voz tranquila e seu olhar era como um calmante. Gostou  do cabelo bagunçado e achou graça no fato de ela declarar amor por filmes infantis e de ela contar que tentava aprender, sempre sem sucesso, a tocar violão.

Aquela noite, souberam que estariam sempre por perto e que se amariam. Três anos se passaram e o velho bar tornou-se marco na vida daquele casal. Sabiam que era destino e que este estaria sempre aos seus lados, e que, embora tivessem desencontros, no fim estariam juntos, nem que nas lembranças e memórias que construíram juntos após aquele dia.

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

2 comentários:

  1. Praticamente um pequeno roteiro literário para uma cena de filme. Essa forma de escrita é interessante. Existe um livro chamado “As Relações Perigosas, do Choderlos de Laclos, que mostra uma narrativa valendo-se apenas de cartas trocadas entre os personagens. Procure!

    No mais, uma leitura suave e gratificante. Parabéns.
    E obrigado por estar sempre no Teatro.

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    1. Oi Brunno, obrigada pela dica! Com certeza vou procurar e ler este livro.
      Obrigada você por aparecer por aqui!
      beijos

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