Poeira

Meus olhos estão vazios, tem poeira nos móveis da sala. Minha cama está desarrumada e os objetos do jeito que você deixou. Não mexi em nada, não queria estragar ou tirar o seu toque das coisas. Deixei tudo por ali e sentei na cama, fiquei olhando, procurando você em supostos esconderijos. Você não saiu de nenhum. Achei que você estava brincando comigo, que queria que eu te procurasse, mas não. Fechei meus olhos e voltei no tempo, era dia 16 de setembro de um ano qualquer e você estava chegando de mansinho. Eu não sabia se gostava muito do seu jeito, mas gostava muito da sua voz e disso eu tinha certeza. E aí, eu mal pude piscar e você entrou de vez, me tomou o coração e boa parte do meu dia. Nos tornamos um só, e quando eu menos esperava você foi embora, como fumaça, você desapareceu. E eu fiquei por aqui, cuidando das dores do meu coração. E ele ainda dói um pouco, confesso. Agora, por exemplo, estou analisando todos os objetos do meu quarto, querendo encontrar as suas digitais e seu perfume em qualquer coisa. Qualquer coisa me traga um pedaço de você, ou você por inteiro. Já não sei mais do que eu preciso, só sei que não quero sair daqui, que a luz do sol queimaria a minha retina pois há tanto tempo já não o vejo brilhar.
Dizem-me por aí que sou louca por ainda querer guardar você, mas infelizmente não controlamos o coração e não podemos desfazer os nós dos sentimentos amarrados. Sofro por você no meu silêncio, não vou atrás. Não vou atrás por não ter forças, por não saber o que fazer. Você sabe que eu sempre fui enrolada, foi um dos meus maiores defeitos a vida toda. Olha pro céu, menina - penso eu. Olha pro céu e guarda essas lágrimas aí dentro, olha pro céu que onde quer que ele esteja, o que está sobre você está sobre ele também, até as estrelas de vocês são, provavelmente, as mesmas. Vou até a janela e as nuvem acobertam todo o céu, penso nelas como uma grande colcha que nos cobre, assim, estamos juntos na grande cama do mundo, a diferença é que eu estou na minha cama, olhando tudo o que você me deixou, e você está sabe se lá Deus onde, olhando sei lá eu o que, mas a ideia das nuvens me conforta um pouco. É o que mais me conforta, talvez. 

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

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