Pelo fim do vai-e-vem e dos joguinhos de caça-tesouro

Você se vai e eu voo. Você me abandona e eu corro atrás. Você chega e eu já vou me encaixando no meio das suas mãos, dentro do seus braços e, se tiver espaço, dentro do seu peito. Você bate na minha porta e eu abro com aquele sorriso-paraíso, aquele sorriso que eu só dou com você. Você me beija e eu levanto meu pé direito, rodopio em um universo paralelo e volto pra sentir um pouco mais do teu calor.
Mas aí eu sei que a gente nunca dura, que uma hora ou outra você vai sem mais nem menos e eu saio procurando você pelo bairro. A dona do mercadinho da esquina disse que  " tinha um moço bonito, de cabelos bagunçados e sorriso no rosto, mas ele dobrou ali na esquina, menina, ele até passou por aqui e comprou um chocolate e disse que tava feliz, menina, acho que era por você.". E aí boto o meu sorriso-paraíso no rosto e saio procurando por você, já conheço aquele seu jogo de caça ao tesouro. Passo pela locadora e olho atrás daquele filme que a gente assistia toda segunda quinta-feira do mês, caso ela chovesse,  e a próxima dica está lá. Corro pra sorveteria do seu Zé, peço um sorvete de casquinha de chocolate e ali está a próxima pista. Fecho os meus olhos e penso "e agora, pra onde eu corro?", lembro que o próximo lugar é o parque, sempre é. Atrás daquela árvore onde uma vez eu, secretamente, entalhei nossos nomes está a pista "pelo bem maior", dizia ela. Corro pro cinema, "um ingresso pra seção de agora e pipoca grande, salgada, por favor" e assisto o filme. Descubro que ali está a próxima dica, oitava cadeira -contando do meio para a ponta- da quinta fileira do lado direito. E a próxima pista, eu sei, está em alguma arara daquela loja de departamentos que eu compro um monte de blusinhas que saem pelo preço daquela camisa cara que você usa e diz que "custou quase nada". Encontro a pista dentro da sacola onde estão as minhas compras. Passo naquela lanchonete "batatas grandes e um copo de Coca, por favor, obrigada" e descubro que ali está o que eu esperava, mais uma pista do seu joguinho.
A próxima dica está na minha casa, talvez no espelho ou no controle do vídeo-game. Talvez ela esteja misturada com as minhas maquiagens ou dentro do meu travesseiro, ou nos dois, quem sabe? Descubro, então, que no fim eu não ganhei o chocolate que você comprou ali na esquina da minha casa, mas ganhei minha total liberdade e independência de você. Descobri que, no final, preciso muito mais de mim do que de você, e que se você quiser ir, pode, mas que talvez amanhã eu não abra a minha porta pra você. Que talvez amanhã eu passe o dia embaixo da minha coberta sonhando, talvez sonhe com você - o que é o mais natural que pode acontecer - mas talvez eu sonhe com aquele cara que eu encontrei no parque enquanto eu sentava embaixo da árvore que tem o nosso nome, e melhor ainda seria se eu sonhasse comigo, apenas. Descobri que depois de tanto procurar você, acabei me encontrando e esquecendo que, supostamente, eu preciso de você. Mas por que eu precisaria? Já que você chega na minha porta com ar de quem já vai embora e você some no mundo antes que eu possa dar bom dia e fazer aquelas panquecas pra nós como eu sempre sonhei? E hoje eu sonho comigo e com a minha vida, se você quiser entrar nela, tudo bem, mas entra e fica. Sem fugas, esconderijos ou joguinhos como você sempre fez.

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

Um comentário:

  1. Que pessoinha interessante.

    Lembro de quanto te vi sorrindo meses atrás.
    Era de apaixonar.

    Pena que não foi reciproca a sensação.

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