Amor na vitrine

Eu tava andando pela rua e olhando vitrines. Eu tava lá daquele meu jeito de sempre, sabe? Aparentemente despreocupada, mas lá dentro do peito, amarrados com um nó frouxo, um turbilhão de sentimentos. Aí enquanto eu olhava um vestido de bolinhas que estava em uma daquelas manequins tortas e sem cabeça, eu vi. Eu vi você no reflexo da vitrine. Vi você daquele seu jeito, completamente despreocupado e tranquilo, óculos de sol, estilo mauricinho, passeando. E ver você daquele jeito desamarra o meu nó e solta tudo. Ver você abre a minha Caixa de Pandora e aí saem, de dentro dela, coisas que você não pode nem sonhar. Ver você quebra, esmaga, esmigalha meu pobre coração. Ver você quebra as minhas vitrines, rasga os tecidos da minha pele, estraçalha tudo.
Eu nem sei qual é a sua, se eu sou sua - ou melhor, se você é meu-. Eu nem sei quais seus propósitos, seus sonhos e o que você vai fazer depois. Você passa por aí sempre? Fazia tempo que eu não sentia esse choque de sentir um pouco da tua pele, nem que seja de longe.  Mas se eu te confessar que eu gosto um pouco dessa bagunça toda, você acredita? É, eu gosto de você chegando e eu me perdendo. Eu gosto de pensar que ainda há uma pontinha viva aqui dentro de mim, depois de tanto tempo sem ver você e me sentir morta, você realça tudo o que há de mais vivo em mim. Você realça as minhas cores e meus contrastes, você clareia minhas sombras e tapa os meus defeitinhos. Você faz tudo isso e no fim, eu nem sei se é por querer. Eu queria que você me quisesse, e queria também poder te querer por completo e queria poder me entregar e queria ser sua e um pouco mais.
Mas sabe, eu acho que você devia prender de novo esse meu nó antes de sumir de novo. Amarra bem, pra nada escapar. Amarra e me ensina a desamarrar, vai que numa dessas eu me perca de você e eu precise voltar a sentir, porque é questão de necessidade. Você é o pedaço de mim que vai embora e eu  nem vejo, você é o pedaço de mim que volta e me rouba as atenções. Lá vai você, atravessando a rua. Lá vou eu entrando na loja só pra não ver em qual esquina você dobra.

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

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