Fingimentos

E assim eu sigo, enganando meu coração. Fingindo que as coisas estão exatamente como o planejado e que nada saiu do meu controle. Vou enganando meu coração e vou fingindo que amo, que amo todo mundo e que me importo. Vou aquecendo meu coração com a luz incandescente, fazendo-o acreditar ser uma fogueira. Enquanto isso transformo toda e qualquer coisa em uma pontinha de esperança, de luz, de sentimento. Enquanto isso eu vou fingindo que tá tudo bem, que não há nada para melhorar.
Vou fingindo que meu quarto é meu mundo inteiro e que a lua é o lustre que eu comprei naquela lojinha de iluminação que tem na esquina da casa onde você morava. Vou fingindo também que quando você canta é pra eu ouvir, que mesmo quando está longe você pensa em mim e que você mudaria por mim, mesmo que eu não mudasse nada em você. Enquanto isso eu finjo que você é o amor da minha vida e que mesmo que você vá ter cabelos brancos antes de mim, nossos olhos serão da mesma cor pra sempre. Combinaremos sempre os olhos com o negro da noite.
Vou fingindo que eu escolhi ser assim, ter essa personalidade e que ser meio fechada é uma benção divina. Vou fingindo que os quadros que eu coloquei na parede são para enfeitar e não para tapar buracos. Vou fingindo que minha vida não é um fingimento e que todas as pessoas são felizes.
E eu posso fingir, todo mundo finge, né? Fingem que todas as rádios tocam música boa e que a cultura do país tá maravilhosa. Fingem que as crianças sabem ler, escrever e têm educação. Fingem que as pessoas se respeitam e que a vontade de todos é o que prevalece.
Vou fingindo que tá tudo bem, e por que não estaria? Vou fingir que tenho você ao meu lado e que vou dormir em seus braços. Hoje e pelo resto da minha vida. Hoje eu finjo que vai ser assim, amanhã eu finjo que não te quero mais. Porque fingir já se tornou rotina.

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

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