Fevereiro

 E eu te disse que tava tudo bem, era tarde da noite e eu não podia mais fazer nada. Deitei de lado e senti teu corpo se encaixando no meu. Não dormi. Fiquei ali acordada, sentindo as batidas fortes do teu coração, o subir e descer do teu peito provocado pela tua respiração calma. Fiquei ali pensando em nós e na beleza que tinha em tudo aquilo, em quão valioso era pra mim estar ali contigo. Era meu presente pra vida toda, era a página mais bonita do meu livro, o sorriso mais sincero que já havia brotado no meu rosto. Fechei os olhos e pensei em como, com que coragem, eu havia pensado em acabar com tudo aquilo.
De manhã o sol atravessou a cortina e tu acordastes. Eu sempre amei o tom de verde do teu olho quando o sol bate nele. Teu rosto meio amassado, meio sonolento, tua voz rouca e teu riso falhado me desejando bom dia. E que dia maravilhoso que eu tive do teu lado, e quantos sorrisos banhados pela luz do sol, quantos olhares apaixonados e quantos momentos maravilhosos que tivemos naquele dia.
Mas o depois sempre vinha, e o meu depois era triste, o meu "sem ti" era quase desesperador. Ainda é, mas agora sou obrigada a tentar deixar pra lá. Hoje eu me sinto longe de casa e longe mim. Vez ou outra me sinto longe de ti, mas o que eu posso fazer? Nada. O sol já não nasce mais e o brilho do teu olho já não reflete mais no meu. Meus ouvidos não ouvem mais a tua gargalhada e meu corpo não encaixa mais no teu. Eu nem lembro o quanto tu me deixavas feliz, o quanto te ter ao meu lado me deixava mais forte. Gastamos juntos duas caixas de giz escrevendo nossos nomes em todas as calçadas da cidade, pra mostrar ao mundo o quão felizes éramos juntos. E tinha ainda as nossas tardes juntos, os brigadeiros e sorvetes que iam parar acidentalmente no nariz um do outro.
Hoje eu tento me convencer de que eu não podia ter feito mais por nós, quando eu sei que eu não fiz metade. Hoje eu faria por ti tudo aquilo que eu disse que nunca faria por ninguém, porque hoje eu sei o quanto dói estar sem ti ao meu lado, hoje eu sei que as madrugadas são longas e a dor é quase crônica. Hoje eu escuto a coleção das músicas que eu me proibi de ouvir por me trazerem você a todo instante. É tarde novamente e eu estou aqui tentando curar algo que eu não consigo. Eu finjo que passa, mas só as lembranças me trazem paz.
O subir e descer da tua respiração calma no meio daquela noite de fevereiro.

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

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