Palavras

Faz tanto tempo que não escrevo, acho que guardei minhas palavras, ou os sentimentos. Para que  não roubassem, simplesmente, de mim. Roubaram tudo o que eu tinha, roubaram, tiraram de mim cada pedaço do meu corpo, cada glóbulo do meu sangue, cada fibra dos meus músculos e cada fio de sonho que eu insistia em cultivar. Roubaram meu grito de dor, de liberdade e de socorro. Roubaram as mãos que acariciam e que se estendem. Roubaram tudo, fosse sólido, líquido, gasoso ou imaginário.
E fiquei com o que não sobrou de mim. Alma? Talvez. Talvez tenha ficado jogado por aí um pensamento vazio, talvez tenha se escondido por aí, uma gota de esperança. Talvez um dia eu reconstrua meu império, meu palácio, meu corpo e espírito que seja. Por enquanto tento encontrar ao menos as palavras que se esvaem. Talvez elas tenham medo de aparecer e serem tomadas de mim também. Guardo-as com toda a proteção que posso. Guardo pois são minhas, as palavras. E antes mesmo de tudo isso, quando eu ainda estava inteira, guardava-as. Sempre o fiz pois elas, e só elas, podem criar meu mundo. Mundo interno, inverno interno, primavera, verão ou seja lá o que eu queira, elas criam.
E mesmo que digam que são "apenas palavras", quando bem ditas (diga-se de passagem, ditas do fundo da alma, quando são arrancadas até dos ossos se preciso for) as palavras mudam qualquer coisa. "Quem tem boca vai à Roma", diz-se por aí, digo eu que quem tem as palavras certas vai, não só à roma, mas atravessa o mundo e nada os sete mares. Queria eu ter a coragem de falar tudo, palavras certas, incertas, arrancadas dos ossos, da alma, do coração e da ponta do dedo. Talvez assim aliviasse tudo, talvez assim tudo fosse curado, o que me pertence fosse devolvido e as minhas palavras finalmente fluíssem.
Boas palavras são raridades, palavras boas são um conforto. E não sei se agradeço pelas palavras que tenho ou peço por aquelas que me faltam às vezes, porque tem vezes que faltam tantas coisas e só as palavras é que fazem falta. E eu sinto falta.

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

2 comentários:

  1. A sua coragem virá quando suas palavras saírem de suas cordas vocais, viajarem pelo seu corpo e tomarem lugar em seus músculos, gerando ações que te farão se sentir mais forte.

    As palavras estão em tudo, mesmo que não necessariamente escritas. A intenção de as fazer tomarem outras formas é que faz as mesmas terem um valor diferente.

    É você que tira o melhor delas, sendo letras ou atitudes.

    Muito bom.

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  2. Palavras, palavras, palavras. Quantas vezes também já me vi na posição de precisar guardar e sufocar em minhas minhas próprias palavras.. sei plenamente o quanto estão ali, mas finjo que não. E mais hora menos hora, vejo que estou com saudade, das palavras.
    Gostei do texto!
    Beijos, b.

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