Vício

Quem sabe a gente não canta de novo aquela canção e lê de novo aquele poema? Quem sabe a gente não visita seus tios de novo ou não nos escondemos da sua irmã dentro do armário? Quem sabe a gente não volta àquela padaria e come de novo aquele bolinho ou não cozinhamos de novo aquele prato que sua avó nos ensinou?
Porque eu reviveria tudo, cada letra e sinal gráfico que foi deixado em um tempo chamado passado. Eu reescreveria todo o nosso livro de novo se fosse necessário para ter você aqui. Eu perdoaria todos os teus erros, até mesmo aqueles que mais me machucaram. Eu passaria por cima de todas as pedras que você colocou no meu caminho e subiria na escada que me leva ao seu andar só pra dizer que você ainda está em algum lugar. Ou melhor, pra dizer que eu ainda estou por aí, vagando em alguma rua e caminhando mais devagar quando passo perto da rua do seu trabalho só pra ver se quem sabe você não cruza alguma porta.
E quando eu me recomponho, eu percebo que falta o teu prato na mesa, que o teu travesseiro aqui ainda está vazio e que você ainda não chegou bagunçando os tapetes da minha cozinha. Olha, eu sei que já passaram anos, mas existem coisas que não são gravadas no calendário, existem coisas que duram a eternidade, e eternidade é uma palavra que eu sempre achei que podia ficar legal se a gente juntasse ela com nós. Porque eu mudaria qualquer coisa em mim, qualquer coisa mesmo, se fosse pra viver ao seu lado. Você é o único pra quem eu prometi felicidade eterna e plena. Você é o único para quem eu venho escrevendo todos esses textos a anos. Desde quando eu te conheci.
Você mudou, eu mudei, mas os sentimentos não. Nem a vontade que eu tenho de correr atrás de você sempre que eu te vejo. Hoje, por exemplo, se eu não tivesse atrasada, você acha que eu não teria acelerado a minha moto pra ir atrás da sua? Eu teria ido, nem que fosse pra passar ao lado e poder olhar dentro do seus olhos -única coisa que o capacete não escondia. Cara, eu sinto o seu perfume exalando de mim enquanto eu tomo banho, eu sinto as suas mãos pelas minhas costas quando eu deito pra dormir, eu sinto o se abraço cada vez que eu fecho os meus olhos. Isso é normal? Você acha tudo isso normal? Depois de tantos anos e depois de tudo o que você me fez passar, você acha que isso deveria mesmo estar acontecendo? Eu ainda te faria as mesmas promessas e te beijaria com a mesma vontade se você viesse até mim e dissesse que me quer. Poxa, olha só tudo o que a gente viveu depois que a vida nos jogou um para cada lado. Você tem noção de quantos caras eu beijei na esperança de encontrar um gosto melhor que o seu? Você tem noção de quantos abraços eu imploro por dia na esperança que conseguir me reconfortar? Você tem noção de quantos litros de perfume eu já usei pra ver se o seu sai da minha pele? Nada ajuda, e eu entro em um desespero profundo, eu me sinto impotente diante de tudo isso. Cara, olha o que o tempo fez por nós, a gente amadureceu mas eu ainda sou completamente, perdidamente e plenamente sua. Por quanto tempo isso vai durar? Por quanto tempo você vai fingir que eu não existo? Por quanto tempo eu ainda vou viver cada dia como um alcoólico anônimo vive: segurando firme pra não recair pela décima quarta vez.

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

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