Sobre músicas, memórias e buracos mal tapados

Uma hora você deixa pra trás todo o passado. Eu deixei tudo, tudo o que eu conquistei um dia. Esvaziei toda a minha bagagem e botei fora todos os cartões postais dos lugares que eu visitei. Rasguei todas as fotos que eu tinha e passei tinta sobre os rabiscos das paredes. Apaguei da minha mente todas as memórias, tudo isso pra nascer de novo. Mudei toda a minha playlist e troquei de instrumento musical. Mudei de profissão, de cabelo, de sonhos mudei até de nome. 
Deixei pra trás todas as alegrias que eu tive, para que não pudesse me basear em nada e valorizar cada momento como se fosse a primeira vez que eu vivia ou sentia aquilo. Esqueci de todas as tristezas pra me convencer de que a vida é bela e que nada nesse mundo pode me parar. Bloqueei todos os meus antigos amigos para me obrigar a conhecer gente nova. 
Fiz porque não aguentava mais conviver com os fantasmas, que estavam no meu passado, mas voltavam toda noite puxar o meu pé. Fiz isso porque eu aprendi que quando a gente abre de mais o coração pra alguém, a gente sempre leva um pontapé e a gente aprende a esquecer. Fiz isso porque eu preciso aprender de novo a lidar com os sentimentos. Fiz isso porque, graças a Deus, a gente aprende a dar valor ao que merece, mas principalmente a não supervalorizar o que não nos vale um centavo. 
Larguei de mão todo o mundo pra agarrar uma única mão que me passe segurança. Abri mão de traços antigos pra começar um novo desenho. Apaguei palavras antigas pra recomeçar a história. Repintei as paredes do meu quarto pra acreditar que ele é novo, que eu sou nova e que todo mundo merece uma segunda chance. Que eu, que só eu, posso me completar e preencher. E só assim percebi que eu preciso daquilo que me transborda, e não daquilo que tapa os meus buracos. 

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

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