Agenda vazia, e mais.

 As primeiras sensações do dia foram boas, levantou, abriu a janela, absorveu o sol, respirou. Tomou um banho com água gelada que lava a alma. Pegou suas coisas, passou na cafeteria. Capuccino médio com chantilly e 2 pães de queijo, por favor. Sentou na mesa, pegou sua agenda e abriu na folha que correspondia  àquele dia. Vazio. Pôs a agenda de volta em sua bolsa e puxou um livro que estava nela, junto com o livro caiu uma velha fotografia. Era um abraço e dois sorrisos, um deles, pensou ela, era quase um raio de sol. Apertou a foto junto ao peito e lembrou que aquilo já não lhe pertencia, quanto tempo havia se passado? Ela não fazia questão de lembrar. Dobrou a fotografia ao meio e a colocou de volta no compartimento do qual ela nunca deveria ter saído. Abriu o livro e iniciou a leitura da página 34. Não conseguiu se concentrar na história da menina dos sapatinhos sei lá o que. Fechou o livro, pediu a conta, pagou e saiu.
Passou pela vitrine de umas lojas, olhou aqui e ali. Uma bolsa, um sapato, uma blusa, o vestido pra festa do fim de semana. Nada levou. Mãos vazias. Coração vazio e cabeça cheia, como sempre. O sinal abriu e ela perdeu, novamente, a chance de atravessar. Odiava aquela cidade grande mais do que a qualquer coisa. Sentia saudade de poder andar em um parque limpo e respirar o ar puro. "Ao menos os prédios não tapam a visão da janela do meu quarto" suspirou. 
Chegou em casa, 4 mensagens na caixa postal. Família, amigos, convites pra festa e o sorriso raio de sol. Como ele ainda arrancava lágrimas dela? Ele havia arrancado o coração dela e ela ainda se sensibilizava. Paciência. Respira, engole o choro. Abre a geladeira, pega o resto do brigadeiro de ontem, puxou uma coberta. Ligou a TV, se afundou no sofá, botou no programa de comédia preferido. Era manhã e ela estava comendo brigadeiro. "Que se dane o almoço" sorriu. E se aquele raio de sol aparecesse agora, ela abriria a porta? Não, com certeza não. Com toda a certeza que ela não tinha, com todas as forças que ela havia juntado desde o dedão do pé, ela resistiria e não abriria a porta. Ela não precisava daquela luz e nem do seu coração. 

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

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