A terra dos cérebros e corações

Era uma vez uma terra nova, era um lugar lindo, ensolarado, as aves e as borboletas sobrevoavam a cabeça de todos os moradores daquele estranho, porém belo, lugar. Enquanto os moradores dos outros lugares dividiam-se entre homens e mulheres, os curiosos habitantes daquela terra se dividiam entre cérebro e coração. Aquela terra era instável, todos os moradores tinham a impressão de que ela se movia, sofria temores, mudava a paisagem a toda hora. E eles estavam certos, o que aquelas pequenas criaturas não sabiam é que sua terra, Corpo, realmente se movia no espaço. Os primeiros a descobrirem isso foram os sábios cérebros, sempre dotados da inteligência e da razão. Após muito estudos, um grupo de cérebros descobriu que Corpo não estava sozinho no espaço, e após mais estudos ainda descobriram que dentro dessas novas terras havia vida.
Os corações, mais despreocupados com a existência ou não de outras terras, continuavam suas vidas tranquilas. Os corações, ao contrário dos cérebros, eram completamente irracionais, dotados de emoção e sentimento e costumavam andar em pares, completando uns aos outros. Exceto um. Havia um pequeno coração que não acreditava no amor, ele vivia a vida do jeito dele e sozinho.
Os cérebros, que nunca cansavam de estudar, perceberam que Corpo chegava muito próximo às outras terras e tentaram contato com os habitantes das terras-mais-novas-ainda. Os cérebros falharam. A cada nova tentativa, uma nova decepção para o grupo de cérebros estudiosos e esforçados. Porém, um dia o pequeno coração solitário estava caminhando perto de um muro, mudo o qual eles - desconhecendo o motivo - sabiam que eram incapazes de atravessar, ouviu um barulho. Estava aparantemente sozinho. O pequeno coração perguntou o que estava ali, em troca ele recebeu a resposta: "ninguém". O coraçãozinho solitário sentou-se perto do muro e do outro lado ouviu um choro, um choro desesperado, que fez com que ele sentisse um sentimento de pena inigualável.
O pequeno coração decidiu correr até o CSN, mais conhecido como Centro de Sistema Nervoso, para contar ao grupo de cérebros estudiosos o que havia acontecido. Ele queria saber o que, e porque, estava chorando do outro lado do infinito e inultrapassável muro. Os cérebros logo pensaram, o que não era novidade visto que os cérebros estavam sempre pensando e calculando, que finalmente fariam contato com as vidas das novas terras. O coraçãozinho levou os cérebros até o lugar onde, ainda, algo chorava. Porém a resposta unanime dos cérebros foi: "não escuto nada". O coração achou que estava ficando louco, mas ele continuava a ouvir um choro desesperador do outro lado do grandioso muro. Como era sensível, apesar de não acreditar no amor, o coração disse palavras reconfortantes e ouviu muito sentimento em troca. Soube então que do outro lado do muro havia também um coração.
O coraçãozinho passou a conversar todos os dias com o coração-desesperado-do-lado-de-lá. Logo aquilo já tornava-se um vício. Soube o pequeno coração que havia encontrado o amor.
Seu amor estava do outro lado do muro e os cérebros diziam que ele não existia, já que não podiam ouvi-lo e muito menos vê-lo. O coraçãozinho-que-já-não-é-mais-solitário-e-acreditava-no-amor parou de ouvir os sábios cérebros, da mesma forma como os outros corações apaixonados faziam, e se entregou ao coração-preso-do-outro-lado-que-já-não-chora.
Os cérebros perceberam que Corpo já não mudava de paisagem a um tempo, que o céu estava muito azul porém frequentemente eram banhados por uma chuva, não ácida, mas salivar, os cérebros perceberam que o pequeno coraçãozinho andava maior, mais feliz e mais cheio, porém mais leve. Os cérebros perceberam que a produção de ocitocina, o que os corações chamavam de liquido do amor, havia aumentado de forma inexplicável na Central Endócrina, que também era comandada pelo CSN. Os cérebros começaram a estudar os sons vindos de fora de Corpo e as chamaram de risadas, gargalhadas. Os corações o chamaram de som do amor. Os cérebros acharam que Corpo havia simplesmente colidido com uma terra desconhecida. Os corações sabiam: Corpo estava apaixonado.

19 anos, taurina. Escritora de gaveta, cantora de chuveiro e futura CSI

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